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Expolages – 2015
RAÇA CRIOULA LAGEANA
Disputas marcam o primeiro dia de julgamento dos bovinos da Expolages 2014
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RAÇA CRIOULA LAGEANA
Touro da raça Crioula Lageana variedade Mocha

Os bovinos da raça Crioula Lageana têm como ancestrais aqueles de origem ibérica introduzidos pelos colonizadores portugueses e espanhóis no Brasil à época do descobrimento. As missões jesuíticas colaboraram muito com a manutenção de um grupamento genético remanescente, ao transportarem animais da região das Missões, com o objetivo de evitar o roubo de gado da região missioneira para os Campos de Cima da Serra, nos dois lados do rio Pelotas ocultando, assim, um grande rebanho para futuramente alimentar os povos das Missões. Com a expulsão dos jesuítas, esses animais ficaram isolados sob um processo de seleção natural, onde floresceu um rebanho de gado xucro, resistente e bem adaptado às condições ambientais do Planalto Serrano Catarinense, a região mais fria do Brasil e que serviu de esteio para a economia da região até meados do século XX, quando então se iniciou a exploração extrativista da madeira, preponderantemente da araucária.

 

Cinco séculos de seleção

A grande variação fisionômica dos campos do Planalto Sul com diversidade de espécies e seus inerentes valores nutricionais, contribuiu com a capacidade adaptativa à qual a raça Crioula Lageana foi submetida durante cinco séculos de seleção, neste ambiente de extrema variabilidade. Reforçando, assim, o que os criadores mais antigos falam com grande orgulho, que o gado crioulo se cria a campo e com poucos recursos, ou seja, sem a necessidade de grandes investimentos. Não é raro para os criadores da raça, observar durante o inverno, a entrada e permanência os bovinos nas matas, alimentando-se de folhas, arbustos e musgos, que os mantêm no período de escassez de alimento. Os campos naturais do Planalto Serrano Catarinense representam um valioso recurso forrageiro de que se dispõe para uma pecuária extensiva, sendo a alternativa mais interessante para a produção animal, por necessitar de menos insumos e tecnologias importadas, além de ser uma forma de preservar este ecossistema, um patrimônio nacional, cuja riqueza ainda não foi suficientemente avaliada.

Esses bovinos rústicos e bem-adaptados às condições do Planalto Serrano Catarinense foram gradativamente substituídos por raças exóticas europeias e zebuínas selecionadas em países desenvolvidos e que eram consideradas mais produtivas do que os bovinos crioulos, ainda que aos crioulos não tivessem oferecido a oportunidade de qualquer avaliação científica que permitisse fazer inferências sobre os mesmos. Muitas décadas antes de se ouvir falar da importância da diversidade genética, biotecnologia, conservação de germoplasma ou núcleos de conservação de animais, eram os bovinos crioulos que compunham o rebanho do Planalto Serrano Catarinense. Naquele tempo, eles estavam presentes nas grandes fazendas e sustentaram as famílias que habitavam na região, permitindo inclusive a manutenção dos filhos dos criadores em centros mais desenvolvidos para sua formação profissional.

Pela seleção natural que sofreu o bovino Crioulo Lageano, os animais são fortes, longevos e de alta fertilidade.

 

Risco de extinção

Esses animais só não foram extintos por dois relevantes motivos. O primeiro, mais contundente foi a perseverança de dois produtores catarinenses em manter os bovinos crioulos, por acreditarem em seu potencial e o segundo e vital, a simbiose realizada com diversas instituições de pesquisa e ensino, o que muito contribuiu nos avanços no conhecimento científico e a manutenção do desenvolvimento da raça. Esses fatores estimularam a criação da Associação Brasileira de Criadores de Bovinos da Raça Crioula Lageana – ABCCL no ano de 2003, com sede em Lages – SC, culminando com o reconhecimento da raça pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, no mês de outubro de 2008. 

As parcerias institucionais bem consolidadas permitem continuamente a realização de estudos para a conservação da base genética da raça sem que se perca o foco no desenvolvimento de cadeias mercadológicas de produtos nacionais com potencial de agregação de valor e renda aos produtores. O fruto do trabalho de tantos pesquisadores é a demonstração do quanto esta raça brasileira pode contribuir com os programas de seleção e melhoramento genético animal, com vistas a novos paradigmas na pecuária nacional.

Características da raça

Pela seleção natural que sofreu o bovino Crioulo Lageano, culminando com sua perfeita adaptação ao ecossistema do Planalto Serrano Catarinense, os animais são fortes, longevos e de alta fertilidade, sendo comum a parição de vacas até os 21 anos de idade. As fêmeas atingem a puberdade aos 14 meses e os machos entre 18 e 24 meses, quando colocados em pastagens cultivadas durante o período de inverno. O peso dos terneiros ao nascerem varia entre 28,2 kg para machos e 26,7 kg para fêmeas, sendo muito rara a incidência de distocias. As vacas têm boa habilidade materna e defendem suas crias mantendo afastados os predadores naturais. 

O peso ao desmame realizado aos 208 dias é de aproximadamente 180 kg .Os touros atingem os 800 kg de peso vivo e as vacas entre 550 e 600 kg. Os animais quando corretamente manejados apresentam temperamento dócil procurando a aproximação, mesmo a campo, com as pessoas com quem tem contato. 

Na raça Crioula Lageana, há duas variedades, a aspada e a mocha. A variedade aspada com longos chifres que, a partir de sua inserção tem saída lateral em linha reta, para depois se dirigirem para frente e, em seguida, para cima, confere ao animal uma aparência de altivez que juntamente com a paisagem formam um conjunto harmônico de beleza singular. A variedade mocha, além de outras qualidades mencionadas anteriormente, apresenta a facilidade de manejo, pela ausência de chifres. O bovino Crioulo Lageano apresenta perfil de cabeça retilíneo ou subconcavilíneo e mucosas pigmentadas, orelhas arredondadas, pequenas e leves. Nas duas variedades, a pele é grossa e pigmentada, coberta de pelos curtos, o que propicia menor infestação por ectoparasitas. A coloração do pelo varia do branco ao preto ou vermelho e as mais variadas combinações e intensidades de cor, sendo que a pele tem um valor comercial diferenciado no mercado. A pigmentação das mucosas acompanha a pigmentação dos chifres e dos cascos do animal. O corpo é cilíndrico, de tamanho entre mediano e grande com tórax profundo e costelas pouco arqueadas, com uma boa conformação de garupa.

 

Entre os aspectos intrínsecos à qualidade da carne, a composição de ácidos graxos tem grande importância,

pois influencia as propriedades nutricionais e os aspectos organolépticos.

 

Qualidade da carne

Nos últimos anos, o setor pecuário tem se deparado com uma crescente demanda do mercado, por produtos de alta qualidade gustativa e visual, aliados à segurança. Os atributos da qualidade da carne incluem a qualidade visual, gustativa e nutricional que ofereçam ao consumidor uma imagem favorável do produto como alimento adequado à vida saudável. A carne do bovino Crioulo Lageano possui atributos importantes incluindo o marmoreio, relacionando-se com a suculência, aroma e maciez. Além disso, apresenta características de carcaça, como proporções cortes: carcaça, composição química e textura que a indicam como candidata a oferecer um produto diferenciado, que poderia também ser utilizado para cruzamentos industriais.

Entre os aspectos intrínsecos à qualidade de carne, a composição de ácidos graxos tem grande importância, pois influencia as propriedades nutricionais e os aspectos organolépticos. O perfil lipídico é influenciado por fatores genéticos e ambientais, sendo que este último inclui principalmente a alimentação. A carne de ruminantes alimentados a pasto é uma fonte interessante de ácidos graxos poli-insaturados n-3, devido à presença do ácido α- linolênico. O sistema de criação a pasto, praticado com os bovinos Crioulos Lageanos, influencia na produção de ácidos graxos poli-insaturados benéficos, associados à diminuição do risco de doenças coronarianas além dos efeitos antitrombótico, anti-inflamatório e hipotensor. Desse modo, a fração lipídica da carne do bovino Crioulo Lageano apresenta características que possibilitam a sua inserção de modo competitivo no mercado consumidor, permitindo a consolidação da cadeia produtiva e mercadológica desta raça, e a conservação deste importante recurso genético brasileiro.

Por: Vera Maria Villamil Martins – médica veterinária e produtora

Tags: bovinos
Categoria: Fazenda